A Divina Comédia

Dante e seus Poemas por Domenico di Michelino (1460).


A Divina Comédia
Inferno

CANTO I

Dante, perdido numa selva escura, erra nela toda noite. Saindo ao amanhecer, começa a subir por uma colina, quando lhe atravessam a passagem uma pantera, um leão e uma loba, que o repelem para a selva. Aparece-lhe então a imagem de Virgílio, que o reanima e se oferece a tirá-lo de lá, fazendo-o passar pelo Inferno e pelo Purgatório. Beatriz, depois, o guiará ao Paraíso. Dante o segue.


Estamos no primeiro canto do Inferno que funciona como prelúdio de toda a Comédia . É o alvorecer do dia da Encarnação, em 1300, ano do Jubileu. Dante tem 35 anos, portanto está na metade de sua existência terrena (segundo o que ele mesmo escreveu no Convívio , a vida do homem durou em média 70 anos).

Um desafio dantesco: iniciei uma jornada infernal


Dante perdido na floresta (Canto I). Ilustração de Gustave Doré (século XIX).

Infierno, Canto 1: Dante en el bosque salvaje, ilustración de "La Divina Comedia" de Dante Alighieri, 1885



La Selva Oscura. Ilustración de Gabriele Dell´Ott



DA nossa vida, em meio da jornada, 
Achei-me numa selva tenebrosa,
3 Tendo perdido a verdadeira estrada.

1 - Em meio etc. Aos 35 anos. Dante tinha 35 anos no dia 25 de março de 1300, ano no qual o papa Bonifácio VIII proclamou o primeiro Jubileu.
2 - Tenebrosa etc., simbólica selva dos vícios humanos

Dizer qual era é cousa penosa,
Desta brava espessura a asperidade,
6 Que a memória a relembra inda cuidadosa.
Asperidade significa: aspereza; Provocações, pertinência, rigores; Saliência, irregularidades numa superfície.

Na morte há pouco mais de acerbidade;
Mas para o bem narrar lá deparado
9 De outras cousas que vi, direi verdade.
Acerbidade é sinônimo de amargura, crueldade, aspereza, rigor, acrimônia.




Contar não posso como tinha entrado;
Tanto o sono os sentidos me tomara,
12 Quando hei o bom caminho abandonado.

Depois que a uma colina me cercara,
Onde ia o vale escuro terminando, 
15 Que pavor tão profundo me causara.

Ao alto olhei, e já, de luz banhando, 
Vi-lhe estar às espaldas o planeta, 
18 Que, certo, em toda parte guiando.

Então o assombro um tanto se aquieta, 
Que do peito no lago perdurava,
21 Naquela noite atribulada, inquieta.

E como quem o anélito esgotava
Sobre as ondas, já salvo, inda medroso
24 Olha o mar perigoso em que lutava,

O meu ânimo assim, que treme ansioso,
Volveu-se a remirar vencido o espaço
27 Que homem vivo jamais passou ditoso.

Tendo já repousado o corpo lasso, 
Segui pela deserta falda avante;
30 Mais baixo sendo o pé firme no passo.


Passou uma noite terrível perdido numa floresta escura que representa o estado de perplexidade e pecado em que se encontra; agora, confortado pela luz do dia, ele tenta subir de volta ao topo do morro para encontrar uma saída, mas três feras ferozes - uma pantera, um leão e uma loba - aparecem na sua frente, bloqueando seu caminho.

Viaggio nel Dante Urbinate: Canto I, l’incontro con Virgilio


La Divina Comedia de Dante Alighieri. Miniatura que representa a Dante, Virgilio y las tres bestias. Manuscrito del siglo XIV. Bibl. Municipal de Rimini.





"Dante encuentra en la selva a las tres fieras y a Virgilio" - Ilustración de Inf.1 - Joseph Anton Koch



Dante correndo das três feras - William Blake

DANTE in the shadow forest ( la selva oscura)


Canto I

Divina Comedia de Dante (tomo I) - Bartolomeo Pinelli

Dante She Wolf


DANTE'S "INFERNO"




Eis da subida quase ao mesmo instante
Assoma ágil e rápida pantera
33 Tendo a pele por malhas cambiante.

32 - Pantera, símbolo da luxúria e da fraude; politicamente, de Florença.

Não se afastava de ante mim a fera;
E em modo tal meu caminhar tolhia,
36 Que atrás por vezes eu tonar quisera.

Dante acuado pela fera(o Poder) – Divina Comédia – Gravura de Gustave Doré

Inferno, Canto 1: A pantera no início da subida, ilustração da Divina Comédia de Dante Alighieri, 1885 
(gravura digital colorida)


No céu a aurora já resplandecia,
Subia o sol, dos astros rodeado,
39 Seus sócios, quando o Amor divino um dia

A tais primores movimento há dado.
Me infundiam desta arte alma esperança
42 Da fera o dorso mosqueado,


Infierno, Canto 1: El león de repente se enfrenta a Dante, ilustración de La Divina Comedia de Dante Alighieri, 1885 (grabado en color digital) - Gustave after Dore


A hora amena e a quadra doce e mansa.
De um leão de repente surge o aspecto,
45 Que ao meu peito o pavor de novo lança.

44 - Um leão, símbolo da soberba e da violência; politicamente, da França.

Que me investisse então cuido inquieto;
Com fome e raiva atroz fronte levanta;
48 Tremer parece o ar ao seu conspeto.

Conspeto: o mesmo que conspecto: Ato de ver, vista, visão; Aspecto, presença; Observação, exame.




Eis surge loba, que de magra espanta;
De ambições todas parecia cheia;
51 Foi causa a muitos de miséria tanta!

50 - Loba, símbolo da avareza e incontinência; politicamente da Cúria Romana.

Com tanta intensa torvação me enleia
Pelo terror, que o cenho seu movia
54 Que a mente à altura não subir receia.

Enleia: verbo enlear: Atar com liame; ligar, prender; Enredar; Perturbar, confundir, despistar, misturar.

Cenho: Nome dado ao rosto com aspecto carrancudo; semblante severo.

Como quem lucro anela noite e dia,
Se acaso o tempo de perder lhe chega,
57 Rebenta em pranto e triste se excrucia.
Excruciar: provocar uma aflição imensa; sentir tormento gigantesco.
Escruciar: afligir muito.

A fera assim me fez, que não sossega;
Pouco a pouco me investe até lançar-me
60 Lá onde o sol se cala e a luz me nega.


Dante já perdeu toda a esperança de se salvar quando, de repente, avista uma figura a quem instintivamente pede ajuda, sem compreender se é um homem ou uma sombra. A figura se apresenta: é Virgílio, autor da Eneida, poema que exalta as origens de Roma e do Império universal.

Fonte: https://www.viv-it.org/schede/virgilio-inferno-canto


Quando ao vale  eu já ia baquear-me
Alguém fraco de voz diviso perto,
63 Que após largo silêncio quer falar-me.

62 - Alguém etc.,  o poeta Virgínio Maro, simbolo da razão humana.

Tanto que o vejo nesse grão deserto,
- "Tem compaixão de mim" - bradei transido - 
66 "Quem quer sejas, sombra ou homem certo!"
Transido: impregnado, repassado, tolhido (de dor, de susto, de paixão etc.).

"Homem não sou" tornou-me - "mas hei sido,
Pais lombardos eu tive; sempre amada
69 Mântua lhes foi; haviam lá nascido.

"Nasci de Julho em era retardada,
Vivi em Roma sob o bom Augusto,
72 Quando em deuses havia a crença errada.

"Poeta, decantei feitos do justo
Filho de Anquíses, que de Tróia veio,
75 Depois  que Ílion soberbo foi combusto.


Anquises, na mitologia grega, foi um príncipe troiano, primo do rei Príamo. Em sua época, Anquises era conhecido por possuir seis excelentes cavalos (algo valorizado na época, uma vez que os troianos eram exímios cavaleiros) e por ter sido amante mortal da deusa Afrodite, com quem teve o filho Eneias - que conduziu os sobreviventes da destruição de Tróia ao final da Guerra de Tróia para fundar uma nova cidade.
Referência: O complexo de Anquises ou o tédio daqueles que chegaram ao topo!

Eneias ou Enéas é um personagem da mitologia greco-romana cuja história é contada na Iíada de Homero, e, sobretudo, na Eneida de Virgílio.
(...)
Com a queda de Troia, sua mãe o aconselhou a deixar a cidade, levando sua família, pois lhe estaria reservado o destino de fazer reviver a glória troiana em outras terras.

"Mas por que tornas da tristeza ao meio?
Por que não vais ao deleitoso monte,
78 Que o prazer todo encerra no teu seio?"


Dante considera Virgílio o maior dos poetas latinos, seu professor e seu autor, modelo de estilo e de vida. Ele certamente se inspirou na Eneida para a Comédia: Enéias, o protagonista do poema de Virgílio, faz uma viagem de aventura ao reino dos mortos, durante a qual tem a oportunidade de aprender o que seu destino lhe reserva.

Fonte: https://www.viv-it.org/schede/virgilio-inferno-canto


"- Oh! Virgílio, tu és aquela fonte
Donde em rio caudal brota a eloquência?"
81 Falei, curvando vergonhoso a fronte. - 

"Ó dos poetas lustre, honra, eminência!
Valham-me o longo estudo, o amor profundo
84 Com que em teu livro procurei ciência!

"És meu mestre, o modelo sem segundo;
Unicamente és tu que hás-me ensinado;
87 O belo estilo que honra-me no mundo.

"A fera vês que o passo me há vedado;
Sábio famoso. acode ao perseguido!
90 Tremo no pulso e veias, transtornado!"

Respondeu, do meu pranto condoído;
"Te convém outra rota de ora avante
93 Para o lugar selvagem ser vencido. 

"A fera, que te faz bradar tremante,
Aqui passar não deixa impunemente;
96 Tanto se opõe, que mata o caminhante.

"Tem tão má natureza, é tão furente,
Que os apetites seus jamais sacia,
99 E fome, impando, mais que de antes sente.

"Com muitos animais se consorcia,
Há-de a outros se unir té ser chegado
102 Lebréu, que a leve à hórrida agonia.

"Por ouro ou por poder nunca tentado
Saber, virtude, amor terá por norte, 
105 Sendo entre Feltro e Feltro potentado.

"Será da humilde Itália amparo forte,
Por quem Camila a virgem dera a vida,
108 Turno Erialo, Niso acharam morte.

"Por ele, em toda parte, repelida
Irá lançar-se no infernal assento,
111 Donde foi pela Inveja conduzida.

"Agora por teu prol, eu tenho o intento
De levar-te comigo; ir-te-ei guiando
114 Pela estancia do eterno sofrimento.

"Onde, estridentes gritos escutando,
Verás almas antigas em tortura
117 Segunda morte a brados suplicando.

"Outros ledos verás, que, em prova dura
Das chamas, inda esperam ter o gozo
120 De Deus no prêmio da imortal ventura.

"Se lá subir quiseres, um ditoso
Espírito, melhor te será guia,
123 Quando eu deixar-te, ao reino glorioso.

"Do céu o Imperador, a rebeldia
Minha à lei castigando, não consente
126 Que eu da cidade sua haja a alegria.

"Em toda parte impera onipotente,
Mas tem no Empíreo sua augusta sede:
129 Feliz, por ele, o eleito à glória ingente!"

- "Vate, rogo-te" - dise eu - "me concede
Por esse Deus, que hás conhecido,
132 Porque este  e maior mal de mim se arrede.

"Que, até onde disseste conduzido,
À porta de São Pedro eu vá contigo
E veja os maus que houveste referido."

136 Move-se o Vale então, após o sigo.

Virgílio explica a Dante que se quiser salvar-se das três feras (símbolo de outros tantos vícios: luxúria, ganância e orgulho), deverá fazer uma viagem pelo Inferno, Purgatório e Paraíso. Nesta longa jornada ele estará sempre ao seu lado como guia até o Paraíso Terrestre, quando Beatriz tomará seu lugar para conduzi-lo ao reino da bem-aventurança, onde um pagão não pode ir.


CANTO II

Depois de invocação às Musas, Dante, considerando a sua fraqueza, duvida de aventurar-se na viagem. Dizendo-lhe, porém, Virgílio, que era Beatriz quem o mandava, e que havia quem se interessava pela salvação, determina-se segui-lo e entra com o seu guia no difícil caminho.  

FORA-se o dia; e o ar, se enevoando, 
Aos animais, que vivem sobre a terra,
3 As fadigas tolhia; eu só, velando,

Me aparelhava a sustentar a guerra
Da jornada, assim como da piedade, 
6 Que vai pintar memória, que não erra.

Ó Musas! Ó do gênio potestade!
Valei-me! Aqui, ó mente, que guardaste
9 Quando vi, mostra a egrégia qualidade.

"Poeta" - assim falei, - "que começaste
A guiar-me, vê bem se em mim persiste
12 Calor que, à empresa que me fias, baste.

"Que o pai do Sílvio fora, referiste, 
Corrutível ainda, até o inferno
15 Sem perder o que em corpo humano existe.

"Se do mal assim o imigo eterno,
Origem vendo nele do alto efeito,
18 O que e o qual, segundo o que discerno,

"Pela razão bem pode ser aceito;
Que para Roma e o império se fundarem
21 Fora do céu por genitor eleito;

"À qual e ao qual cabia aparelharem,
Dizendo-se a verdade, o lugar santo
24 Aos que do maior Pedro o sólio herdaram.

"Nessa empresa, em que o hás louvado tanto,
Cousas ouviu, de que surgiu motivo
27 Ao seu trunfo e ao pontifício manto.

"Lá foi o Vaso Eleito ainda vivo:
Conforto ia buscar, à fé, que à estrada
30 Da salvação principio é decisivo.

"Por que irei? Quem permite esta jornada?
Enéias, Paulo sou? Essa ventura
33 Nem eu, nem outrem crê ser-me adatada.

"Receio, pois seja ato de loucura
Se eu me resigno a cometer a empresa.
36 Supre, és sábio, o que digo em frase escura."

Como quem ora quer, ora despreza,
Sua alma a ideias novas tem disposta,
39 Mostrando aos seus desígnios estranheza,

Assim fiz eu na tenebrosa encosta,
Porque, pensando, abandonava o intento,
42 Formado à pressa, que ora me desgosta.

"Do teu dizer se atinjo o entendimento"
- Do magnânimo a sombra me tornava, -
45 "Eivado estás de ignóbil sentimento,

"Que o homem muita vez faz alma ignava,
Das honrosas ações o desviando,
48 Qual sombra, que o corcel ao medo trava.

"Desse temor livrar-te desejando,
Por que vim te direi e quanto ouvido
51 Hei logo ao ver-te mísero lutando.

"No Limbo era suspenso: eis requerido
Por Dama fui tão bela, tão donosa,
54 Que as ordens suas presto lhe hei pedido.

"Brilhavam mais que a estrela radiosa
Os seus olhos; suave assim dizia
57 De anjo com voz, falando-me piedosa:

- "De Mântua alma cortês, que inda hoje em dia
No mundo gozas fama tão sonora,
60 Que, enquanto existir mundo, mais se amplia,













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